"Margem de erro zero": por que o River Plate gasta tanto e não retoma o protagonismo?
Com faturamento superior a R$ 1 bilhão, clube aposta em
medalhões que não têm correspondido, e as escolhas tanto de jogadores quanto de
treinadores têm sido equivocadas
Por Fred Gomes
e Rafael Bizarelo — Rio de Janeiro
Escolhas ruins
Nicolás Berardo, jornalista
que cobre o River Plate pelo Diário Olé, atribui o momento ruim às escolhas
feitas pelo departamento de futebol. Enzo Francescoli, ídolo enorme do clube e
que colecionou conquistas enquanto jogador do River, é o responsável pela
pasta.
O que melhor exemplifica essa falha do Millonario no mercado é a
atual situação dos reforços. Dos cinco contratados, apenas Fausto Vera e Aníbal
Moreno, que tiveram passagens bem discretas pelo Brasil, são aproveitados. Viña,
emprestado pelo Flamengo, é um dos que estão encostados.
- Em 2026, até o momento, apenas dois dos jogadores contratados
(Aníbal Moreno, Fausto Vera, Matías Viña, Tobías Ramírez e Kendry Páez)
integram o elenco principal. Viña, Ramírez e Páez estão afastados, treinando à
parte e sem espaço na equipe principal - disse Berardo.
O River conseguiu vendas expressivas nos últimos anos, casos de
Claudio Echeverri, Julián Álvarez, Franco Mastantuono e Enzo Fernández.
Na temporada passada, arrecadou R$ 207 milhões em saídas de jogadores. Com esse
aporte somado às receitas oriundas de patrocínio, sócio-torcedor e exploração
do Monumental, o clube pôde gastar mais de R$ 350 milhões na última janela.
- O River vive uma contradição: dispõe de dinheiro suficiente para montar um elenco com campeões mundiais e grandes nomes, mas não está alcançando os resultados esperados. As receitas obtidas pelo clube com patrocínios, somadas às vendas internacionais de alto valor, garantem recursos para investimentos. No entanto, a gestão desses recursos não tem sido bem-sucedida: as escolhas feitas nas últimas janelas de transferências não trouxeram o retorno esperado em campo.
Medalhões que dão pouco retorno
O River Plate nos últimos
anos passou a apostar em vários campeões mundiais pela Argentina em 2022.
Montiel, também campeão da Libertadores de 2018 e que voltou em janeiro de
2025, recebeu elogios no início de sua segunda passagem pelo clube, mas já
viveu período de oscilação. Ángel Correa, recém-contratado, começou muito bem,
dando sequência à boa trajetória de uma temporada no Tigres, do México, mas os
demais não têm devolvido ao River a confiança depositada.
O zagueiro Pezzella teve seu contrato rescindido recentemente.
Colega de posição, Martínez Quarta, campeão da Libertadores de 2018 pelo clube
e que participou do ciclo da Argentina campeã mundial, também não se destaca.
Foi um dos grandes vilões da eliminação diante do Santa Fe, com um pênalti
cometido durante os 90 minutos e uma cobrança desperdiçada após o tempo normal
- isolou a bola.
O lateral-esquerdo Marcos Acuña tampouco está em alta, e a chegada de
Viña, ex-Flamengo, foi justamente para preencher essa lacuna. Como não deu
certo, voltou a ter oportunidades, mas os 34 anos têm pesado contra. Otamendi,
de 38 anos, recém-contratado e apaixonado pelo clube, tem agradado pela
liderança, mas soma apenas oito jogos.
O colombiano Rafael Borré, campeão da Libertadores em 2018 e
autor do gol na decisão do ano seguinte contra o Flamengo, voltou há pouco do
Internacional e também começou mal. Na disputa de pênaltis contra o Santa Fe,
teve a oportunidade de classificar o River num "match-point", mas
bateu na trave.
Contratação mais cara da história do River Plate, o também tricampeão mundial Thiago Almada, que custou quase R$ 180 milhões, tem um início ruim no clube. Em quatro jogos, não soma gols e nem assistências, somente um cartão amarelo. No jogo contra o Vélez Sarsfield do último domingo, em que o River Plate vencia por 2 a 0 e cedeu o empate, falhou feio no gol que deu início à reação do clube onde foi formado.
Próximo treinador: "Margem de erro zero"
O River Plate levantou sua
última taça em março de 2024, quando venceu o Estudiantes por 2 a 1 na
Supercopa Argentina. À época, o ex-zagueiro Martín Demichelis era o treinador.
Demichelis foi demitido no fim de julho de 2024, com três
títulos (Campeonato Argentino, Trofeo de Campeones e Supercopa Argentina). Seu
substituto foi Marcelo Gallardo, treinador mais vitorioso da história do clube
e que conquistou 14 títulos de junho de 2014 a outubro de 2023, entre eles duas
Libertadores. A
segunda passagem de Gallardo foi um fiasco, sem taças e a primeira ausência em
Libertadores depois de 11 participações consecutivas. Insistiu em medalhões de
outrora, como Enzo Pérez e Juanfer Quintero, e não teve sucesso.
- Também não houve sucesso quando contratou Marcelo Gallardo, o técnico mais vitorioso da história do clube, que acabou saindo em fevereiro. Seu substituto, que contava com grande aprovação inicial, também não funcionou: Eduardo Coudet nunca conseguiu imprimir sua identidade à equipe, salvo em poucas partidas - disse o jornalista Nico Berardo.

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