Flamengo ficou perto de desastre e reaprendeu que favoritismo só se confirma em campo
Depois de encaminhar a classificação em Quito, equipe erra muito no
Maracanã e quase vê a vantagem ruir. Arrascaeta e lambança do goleiro dão vaga
ao time de Leonardo Jardim
Por Marcello Neves — Rio de Janeiro
O Flamengo está
nas semifinais da Conmebol Libertadores, mas os aplausos serão contidos desta
vez. Principalmente, porque o time esteve próximo de um desastre no Maracanã. O
empate por 1 a 1 com o Independiente del Valle, nesta quinta-feira, garantiu a
classificação, mas a vaga veio em um jogo no qual a equipe rubro-negra pareceu
subestimar o desafio que tinha pela frente. E fez muita força — muita mesmo —
para se complicar.
Depois de vencer por 2 a 0 na altitude de Quito, era fácil acreditar que
o Del Valle seria uma presa fácil no Rio de Janeiro. Foi um erro grave, que
levou o Flamengo a
uma situação impensável: chegou a estar perdendo por 1 a 0, com um jogador
a menos após a expulsão de Jorginho, e torcendo para que o VAR confirmasse o
impedimento no segundo gol equatoriano. Não fosse a falha bisonha de Quintana
no gol de Arrascaeta, os minutos finais no Maracanã teriam sido de sufoco.
A classificação deixa um recado claro: a Libertadores não aceita
desaforo, e mata-matas não são decididos antes do apito final. O Flamengo avançou
porque é, sim, o melhor time do continente e conseguiu ser impecável em Quito.
Mas, se dependesse apenas do que foi apresentado no Maracanã, o Estudiantes
poderia ter outro adversário na semifinal. Fica o aprendizado, reforçado por
Leonardo Jardim depois da partida.
O grupo está de parabéns, mas temos que chamar a atenção que só somos
favoritos dentro de campo, não fora dele.
— Leonardo Jardim, técnico do Flamengo
Mas o que levou o Flamengo a
viver uma noite tão atípica? Uma combinação de fatores explica uma atuação ruim
em praticamente todos os aspectos. Tecnicamente, nomes como Ayrton Lucas,
Pulgar, Carrascal e Lucas Paquetá puxaram a fila de um desempenho coletivo
abaixo do esperado. Taticamente, o gol cedo favoreceu a estratégia de
contra-ataques do Del Valle, que também levou vantagem no aspecto mental ao
transformar o Maracanã em um caldeirão. O time rubro-negro chegou a ser vaiado
no intervalo.
Mas a pior sensação foi a de que o Flamengo subestimou
o perigo que tinha pela frente. A vantagem construída em Quito era confortável,
mas acabou fazendo o time encarar a partida com certo desinteresse, sobretudo
no primeiro tempo. Curiosamente, a chave só virou depois da expulsão Jorginho,
que fez o torcedor entender a dimensão do perigo iminente: as vaias deram lugar
ao apoio. O caos acabou unindo a arquibancada.
O cartão vermelho de Jorginho, inclusive, merece uma discussão maior. É
possível debater se o volante realmente merecia o segundo cartão amarelo, mas
um jogador de sua experiência não pode dar margem para esse tipo de
interpretação. Pulgar também ficou a centímetros de ser expulso. Manter a
cabeça no lugar será fundamental contra o Estudiantes.
De positivo, é preciso elogiar a postura do Flamengo na
hora de se defender. Se antes a reclamação era pela falta de concentração, o
que foi visto nos minutos finais foi uma equipe que mostrou brio para suportar
a pressão equatoriana. O melhor momento rubro-negro no Maracanã não foi o gol
bizarro marcado por Arrascaeta, foi o empenho tático para igualar as ações
mesmo com um a menos.
Sobre o gol bizarro, um chutão despretensioso de Rossi ganhou altura,
Quintana foi traído pelo quique da bola, e ela sobrou para Arrascaeta decidir
mais uma vez. O uruguaio havia entrado no lugar de Paquetá e, novamente, foi
decisivo para colocar o Flamengo na
semifinal. Simbólico de certa forma.
A classificação veio com mais drama do que deveria, mas premiou um time que teve brio no seu pior momento — e fez por onde para ficar com a vaga. Faltam três jogos para que o sonho do pentacampeonato da Libertadores se realize. A expectativa é mais 90 minutos como os feitos no Equador se repitam; e os 90 minutos do Maracanã sejam esquecidos.

0 Comentários