Brasil virou na base da raça, mas também da tática, e ganhou casca para desafios ainda maiores, será?
Ancelotti faz ajustes
fundamentais no segundo tempo, Seleção sufoca Japão, fura retranca e conquista
classificação para as oitavas de final da Copa do Mundo
Por Bruno Cassucci — Houston, Estados Unidos
Times campeões,
principalmente em torneios eliminatórios, são forjados em jogos como este que
vimos em Houston, entre Brasil e Japão. O roteiro dramático da classificação,
com uma virada aos 50 minutos do segundo tempo pelos pés de um herói
improvável, cria uma casca que ainda faltava à Seleção.
Em um ciclo de Copa
marcado por trocas de comando e turbulência, o Brasil teve raras vitórias que
lhe entregassem confiança. Quando prometeu "porrada neles", levou
quatro de sua maior rival. Deixou a Copa América logo no início do mata-mata,
com campanha medíocre. Perdeu clássicos, tropeçou em amistosos mais difíceis e,
repleto de desfalques, ainda iniciou o Mundial com um empate que só fez por
aumentar o ceticismo.
Por essas e outras
a vitória da última segunda-feira pode representar um marco para a Seleção. A
vaga nas oitavas de final veio na base da raça, algo tantas vezes cobrado pelo
torcedor, mas não só isso. Ajustes táticos após o intervalo foram fundamentais
para melhorar a equipe e furar o bloqueio defensivo japonês.
Com a escalação
mantida pela primeira vez por Carlo Ancelotti, o Brasil começou bem a partida,
assumindo o protagonismo desde o início. Porém, como esperado, o Japão mostrou
organização tática e se fechou com duas linhas de marcação compactas, uma com
cinco e outra com quatro jogadores, num 5-4-1.
"Brasil
cresceu no momento exato da Copa", diz Renato Augusto
Para tentar achar
espaços, a Seleção trocava passes e alargava o campo com dois atletas
posicionados quase nas linhas laterais: pela direita Rayan e pela esquerda
Douglas Santos. Ao atacante faltava um pouco mais de ousadia para arriscar
dribles e jogadas individuais. Ao lateral, oportunidade. Mesmo quando estava
livre de marcação, Douglas não era acionado pelos companheiros.
As estatísticas
mostravam o Brasil com a bola em quase 70% do tempo, mas essa posse foi ficando
cada vez mais improdutiva.
O que já não era
bom ficou ainda pior depois da pausa para hidratação. Danilo errou um passe no
meio de campo e Casemiro, que estava amarelado desde os 14 minutos, nem
desarmou nem fez a falta. Num lance extremamente rápido, Gabriel Magalhães
preferiu correr para trás em vez tirar o espaço de Sano, que acertou ótimo
chute, no cantinho. Alisson se esticou, mas não alcançou. Parecia um déjà vu
dos gols de Bélgica e Croácia nas últimas eliminações brasileiras em Copa.
Em desvantagem no
placar, a Seleção ficou atordoada. Passou a cometer erros bobos e a cruzar
bolas na área a partir da intermediária, o que não gerava perigo. Vini Jr e
Matheus Cunha, dois dos melhores até então na Copa, participavam pouco da
partida.
Lucas Paquetá se
machucou minutos antes do intervalo e gerou um dilema para Ancelotti. Apostar
em Neymar em um jogo tão intenso não parecia ser a melhor alternativa. Danilo
Santos poderia oferecer mais infiltração e dinamismo, mas não tanto controle e
criatividade. Ancelotti preferiu preencher mais a área e optou por Endrick.
A mudança não foi
apenas de jogadores, mas também tática. Em vez de Douglas Santos, quem passou a
dar amplitude pelo lado esquerdo foi Vini Jr. Pela direita, Danilo ganhou mais
liberdade para apoiar e Rayan ficou mais perto da área. A área japonesa ficou
mais preenchida.
Após duas ótimas
chances aos seis e aos oito minutos, o Brasil finalmente empatou aos nove, com
Casemiro calando aqueles que defendiam a saída dele no intervalo - inclusive o
autor deste texto.
Minutos depois, aos
20, Ancelotti tomou outra decisão questionável num primeiro momento, mas que se
mostrou certeira depois. Ele colocou Martinelli no lugar de Matheus Cunha e,
diferentemente do que se poderia imaginar, usou o jogador do Arsenal por
dentro, mantendo Vini aberto na ponta, mais distante do gol.
Rayan cresceu,
Danilo melhorou, Casemiro passou a errar menos. Vini foi importante para
confundir e abrir a defesa rival, embora não tenha sido tão brilhante quanto
nos três primeiros jogos do Mundial.
Na parte final do
jogo, a Seleção passou a ter ainda mais volume e encurralou o Japão, que sofria
com a pressão na saída de bola. Foram mais de 700 passes trocados e 20
finalizações do Brasil - a última delas de Martinelli, no minuto 95,
completando assistência de Bruno Guimarães, que desponta como um dos melhores
jogadores da Copa até aqui.
Este Brasil ainda tem dificuldades quando tem pouco espaço para jogar às costas da defesa adversária, como foi contra o Japão. Vai melhor nas transições rápidas do que nesse jogo de paciência para furar retrancas. Mesmo assim, segue crescendo e criando casca. Faltam quatro jogos para o sonho do hexa.

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